A triste síndrome do Muttley
Façam alguma coisa! Façam nada!
Hoje acordei, lavei o rosto, fiz um café e peguei meu celular. Guerra, crianças passando fome, poderosos destruindo a floresta, mas o que mais me chamou a atenção foi a postagem de Francisca.
Janeiro deste ano, Francisca tinha dado início a um novo ciclo na sua vida. Começou uma dieta, entrou para a academia e, semana passada, participou de uma mini corrida de rua. 5 km em menos de 50 minutos. Nada mal pra quem passou a vida comendo torta e usando o carro para ir à padaria, que fica a 700 m da sua casa. Ontem ela postou uma foto da corrida. Rosto suado, tênis de marca e uma medalha de lata entre os dentes. “Superação!”, foi a legenda da imagem.
Depois da postagem de Francisca, vi um stories de Raul, muito feliz por ter sido eleito o craque do mês, no futebol do domingo que ele frequenta. No canto inferior do stories, um textinho: Quando Deus quer, a vitória é certa.
E assim foram os 40 minutos dos quais perdi rolando o feed da rede social. E vários Rauls e Franciscas foram surgindo, com as mais variadas histórias de conquista e superação. Naquele instante, senti um incômodo, que de início parecia inveja, depois tinha quase certeza que era azia, mas só horas depois que entendi. Era alívio!
Aparentemente, vivemos “La société du spectacle”, onde todos buscam uma única coisa: likes e likes. Milhões/bilhões de Muttleys atrás de “medalha, medalha, medalha”. Na era analógica, um corredor amador treinava por 10, 15 anos até participar de uma corrida. Sem fotos, sem medalhas de participação. Se você quisesse reconhecimento, tinha que fazer por onde ser reconhecido.
Talvez a culpa seja dos seus pais que te fizeram acreditar que você era “especial”.
Uma das frases do momento é: você é o protagonista da sua história. Mas será que todos realmente acreditam que sua história é passível de um filme? Se fizéssemos um filme sobre cada indivíduo que teve câncer e sobreviveu, as pessoas começariam a torcer pela metástase. Não estou dizendo que se curar de um câncer é simples ou que a história do indivíduo não seja admirável, longe disso. Mas você não foi o único, nem o último. Você é só mais um.
As redes sociais trouxeram um falsa sensação de protagonismo e importância às pessoas. Qualquer mínimo esforço é lido como sinônimo de vitória, superação e autoconhecimento. Tem criança ganhando troféu porque aprendeu a cagar no penico.
Você acabou de completar 5 km em um tempo de 39min e 57s. Parabéns! Você está entre os 99,79% das pessoas mais rápidas do mundo… pouco atrás de um idoso cardíaco e de um alcoólatra que passou 12h bebendo em um bar, correu com um copo de pinga e um chinelo de 20 reais e ainda terminou a corrida em terceiro lugar.
O que falarei abaixo pode soar doloroso, talvez até um pouco cruel, mas necessário: Você não é especial porque participou de um evento esportivo ou porque se curou de um câncer. E tudo bem você se sente especial por isso, afinal, só você viveu com toda a intensidade aquela vitória. Mas você não é, eu não sou, tampouco seu pai ou aquele ator famoso, que você tanto ama, sejam. Todos surgiram da mesma forma, necessitam das mesmas coisas e terão o mesmo destino.
E é daí que veio meu alívio. Em saber que sou só mais um no meio de dezenas de bilhões de corpos que vagam e vagaram sobre este solo. Não achei a cura do câncer, não desenvolvi a teoria da relatividade, muito menos fui capaz de salvar milhares de crianças que foram martirizadas em nome do “progresso”. Por que me acharia passível de uma legenda enaltecedora? Não é menosprezo, é lógica. E o alívio de saber que não sofro da síndrome do Muttley, apesar de gostar muito quando vocês comentam ou curtem os meus textos (porque é uma forma de saber que pessoas ainda sabem ler). A verdade é que nossa sociedade vive tão submersa em mediocridades, que qualquer ação rasa e sem nexo pode ser interpretado como algo extraordinário, como fazer musculação 5x na semana, por exemplo.
Correr 5 km não te faz atleta, no máximo um ser vivo capaz de realizar uma tarefa básica. Um carro não te faz melhor que teu vizinho e a bicicleta dele. Viajar para outro país por duas semanas não te faz conhecedor da cultura alheia, apenas alguém que sabe muito pouco de algo novo. A dica que deixo para os leitores é: se sinta bem em ser insignificante, mediano ou anônimo. Ninguém precisa da afirmação externa dizendo que você é bom em algo, se você for realmente bom em algo. É bem melhor ser um desconhecido, do que virar Muttley e passar o resto da vida atrás de medalhas sem valor.




Baita texto, meu chegado